ATELIER DE ESCRITA
Julgo que este lugar pode ser entendido como um espaço de partilha de ideias, pensamentos e sentimentos.
Desde já estão todos convidados: Participem activamente neste espaço como se estivessem na vossa casa!
Atenção, para fazerem comentários no meu blog têm de ser bloguistas!
Se ainda não são bloguistas, criem o vosso blog no blogspot!
Para começar, deixo aqui um texto que escrevi, no âmbito da disciplina Leitura Pública, do Curso Pós-Graduação em Ciências Documentais, do ISLA de Santarém. O professor mostrou à minha turma uma imagem com uma biblioteca destruída (Biblioteca de Holland Park, LONDRES 1940) e deixou no ar a questão: E DEPOIS DA BOMBA? De seguida, solicitou um trabalho individual, que consistia na elaboração de um texto criativo.
Tendo como ponto de partida a imagem e o título apresentados, elaborei o texto abaixo trancrito.
E DEPOIS DA BOMBA?
Naquela noite de luar, caminhava pelos passeios íngremes e poeirentos das ruas, perdida em pensamentos. O silêncio era vertiginoso e total, até ao momento em que cheguei junto da minha biblioteca… junto do que restava dela.
Eu não queria acreditar… dirigia-me para o abismo… caí inanimada e senti a agressividade da calçada. Os meus olhos cerraram-se suavemente durante alguns segundos; mas, pouco tempo depois, abriram-se levemente e, atordoada, procurei uma réstia de esperança. Esperava que tudo não passasse de um pesadelo, mas não, era tudo real. Era um pesadelo real! Tudo à minha volta morrera..
Que infortúnio! Soltei um ai de profunda consternação, com as mãos deitadas à cabeça. Um enorme sentimento de angústia apoderou-se de mim e gritei… gritei de fúria naquele momento… como poderia alguém destruir aquela biblioteca?!…
Sentia-me, mortalmente pálida, a arrastar o meu corpo frágil mas pesado de cansaço e dor, enquanto o incêndio alastrava cada vez mais e as enormes labaredas, implacáveis e infinitas, consumiam a biblioteca e a minha alma. E eu não podia fazer nada! Era tarde demais!… Senti o meu olhar gélido ao contemplar aquele inferno dantesco. E o vento… o vento assobiava baixinho uma melodia melancólica e triste, mirando o meu “eu” quase inexistente.
A chuva começou a cair lentamente… as pessoas abandonaram pouco a pouco o local do incêndio. A chuva começou a cair mais forte… a biblioteca ainda ardia. As pessoas corriam apressadas para fugir da chuva… a biblioteca já tinha ardido e não havia nada a fazer!… A chuva começou a cair ainda mais forte… e eu chorava… e com a minha face revolta tentava esconder a minha dor infinita e sublime.
Sentia-me sem significado… como se tivesse perdido a essência… sentia-me vulnerável e incapaz de agir, com o cérebro cansado e o coração destroçado. Precisava de ajuda… tinha necessidade de entender aquilo que tinha acontecido! Afastei-me daquele local!…
Lembrei-me que, um dia, alguém disse que a noite é a melhor conselheira que jamais houve, e jamais haverá, e que o silêncio ajuda a compreender as coisas que não se conseguem resolver… e eu procurava respostas… tinha de tomar decisões…
Pensei que, apesar de terem morto as palavras, uma a uma, de terem esfaqueado, com loucura, livros escritos… enfim, apesar de terem destruído aquela biblioteca, só um acto de braveza poderia mudar o rumo dos acontecimentos e estabelecer a ordem no meio daquele caos imensurável. Mas, o que fazer?…
Eis que de repente, uma força enorme se apoderou do meu ser, algo de inexplicável invadia o meu pensamento e murmurava: “És capaz de erguer de novo a biblioteca! Não desistas!” Levantei-me logo, ainda que debilmente, olhei confusa o infinito e ouvi o vento assobiar de novo, mas desta vez entoava uma melodia agreste e viva, capaz de fazer o sol raiar durante a noite. Era um sinal! E eu não podia ignorá-lo! Tinha de reagir! Tinha de fazer alguma coisa!
Amanheceu… voltei ao local do crime… o sol tornou-se implacável, com os seus raios chamejantes a causticarem os destroços da biblioteca. Vários transeuntes avançavam, carpindo tristezas, olhavam atónitos e desolados para a desgraça prostrada. Alguns, passando por entre os escombros, tentavam encontrar algo… folheavam livros… livros destruídos… como se tivessem a esperança de conseguir salvar qualquer coisa.
Que flagelo! Juntei-me à multidão e, num acto de loucura e de revolta, gritei:” Oh, injustiça tão gritante! Oh, crueldade tão atroz! Quem foi capaz de aniquilar esta instituição democrática de ensino, de cultura e de informação?! Quem fechou a porta de acesso local ao conhecimento?! Quem destruiu o centro local de informação?! Como podem sobreviver os terroristas do saber?! Onde está a compaixão da Humanidade?! Fiquem sabendo que enquanto eu viver não vão conseguir derrotar o saber! Sobre estas ruínas erguerei pilares e construirei uma nova biblioteca!…”
Abandonei aquele local e, no caminho para casa, pensava na perda de uma vida… na perda da colecção de livros que se encontrava naquela biblioteca… na minha biblioteca… cujo nome recordo com saudade! A revolta entranhou-se no meu ser e a indignação voltou a apoderar-se da minha alma, mas não deixei que me vencessem…
Passaram semanas e uma ideia fixa começou a crescer e a ganhar força a cada dia… tinha de delinear estratégias e envidar esforços no sentido de recuperar a biblioteca.
Toda a minha vida começou a ser dominada por essa obsessão e para onde quer que eu fosse pensava que, enquanto existisse uma pessoa que escrevesse, seria sempre possível constituir um depósito de livros. O livro… esse magnífico instrumento de permanente formação do leitor, a nível intelectual, moral, afectivo, estético!… O livro… que aumenta a experiência e desenvolve a capacidade de compreensão e expressão!… O livro… esse ser misterioso que desperta e estimula a imaginação… que fomenta e educa a sensibilidade… que provoca e orienta a reflexão… que alimenta, fortalece e enriquece… enfim, que cultiva a inteligência!…
E assim, exclamei: “Amanhã será outro dia!…” Depositei a esperança no futuro e deixei que a fé guiasse o meu sonho…
SL


1 Comments:
Sissi :) Parabéns pelo comentário que elaboraste sobre como agir numa situação extrema e pelo caso que tens na foto: o da biblioteca em Londres atingida por um bombardeamento alemão e daí podemos ver como a guerra também é nociva não só para as Bibliotecas, mas também para os Arquivos e Museus que não forem bombardeados são muitas vezes pilhados (recordas-te de quando o Bush invadiu o Iraque a Televisão mostrar as imagens da Biblioteca Nacional do Iraque, em Bagdad totalmente pilhada: uma tragédia). Mas perante estas situações pouco ou nada podemos fazer, o que podemos é tentar atenuar a tragédia nos limites do possível e, como dizes "Amanhã é outro dia!", pelo que devemos "acordar no dia seguinte" de cabeça erguida com disposição de enfrentar o problema com todas as "armas" possíveis e imaginárias ou como disse David Crocket quando estava cercado no forte Álamo pelas tropas do General Santana, sabendo que as munições se acabavam disse para os seus homens: "Quando acabarem as balas ponham pregos nas espingardas" e, nunca devemos assumir o sentimento de derrota como demonstras no texto, mas devemos pensar que esta é possível e que está sempre ao nosso alcance, como referiu um dos meus ídolos "Até à Vitória Sempre!" Porque devemos acreditar que há sempre uma solução para enfrentarmos a catástrofe!
Enviar um comentário
<< Home