Sissi

2006-01-20

A POESIA


O que é a poesia?



A Poesia é uma das sete artes tradicionais, através da qual a linguagem humana é utilizada com fins estéticos. O sentido da mensagem poética também pode ser importante (principalmente se o poema for em louvor de algo ou alguém, ou o contrário: também existe poesia satírica), ainda que seja a forma estética a definir um texto como poético.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Poesia



"A poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens."
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

"A poesia é uma hesitação prolongada entre o sentido e o som."

(Paul Valéry)

"A poesia é a expressão do “eu” por meio de metáforas."
(Massaud Moisés)

"Na poesia nada se perde. Na poesia o nada se cria e o nada se transforma".

(Lavoisier)









Mas afinal, o que é a poesia? O que é que eu entendo por poesia?

Ouvi dizer um dia que a poesia era um conjunto de obras em verso, escritas numa determinada língua ou próprias de uma determinada época, fazendo parte de uma corrente literária. Eu concordo, mas acho que a poesia é muito mais do que isso. A meu ver, a literatura, em geral, e a poesia, em particular, deveriam fugir à clássica divisão em artes e letras e deveriam ser consideradas como artes (tais a arquitectura, a escultura, a pintura, o cinema, a fotografia, a música, a dança,...).
Considero que a poesia é a “arte de fazer versos", que permite a expressão de total liberdade, na medida em que cabe ao poeta escolher e tratar os temas que muito bem entender. Este é o género privilegiado de afirmação do "eu" e da intensidade do sujeito, dado que emprega sistematicamente a 1.ª pessoa.
A poesia é uma arte expressa numa linguagem de dominância simbólica, utiliza um código linguístico que veicula determinadas ideias, cuja unidade é o verso, dando especial relevo a um texto polissémico servido, ao nível do significado, fundamentalmente, pela metáfora.
Gostaria de acrescentar que esta actividade artística é a tentativa de romper com as limitações que a vida nos impõe no dia-a-dia, ou seja, é uma forma de compensação que funciona como um alimento que fortifica a alma.

SL

Para terminar esta abordagem em torno da poesia, resolvi deixar neste espaço um poema... um poema de que gosto muito!



Há Palavras Que Nos Beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill

2 Comments:

At 8:25 p.m., Blogger Rui Lopes said...

Sissi! Tens toda a razão ao afirmar que na poesia domina muito a metáfora, mas há uma coisa que não podemos esquecer na poesia: é que a poesia também é "uma arma", tal como a "cantiga é uma arma". Não esqueçamos que ao longo da História foi através da poesia que foi possível enfrentar ditaduras e iludir os agentes destas, além de ser através da poesia que se puderam fazer críticas em determinada época através da metáfora e há muitos exemplos de como se iludiu a ditadura através da poesia: Não sei se conheces bem o repertório do Zeca Afonso, sobretudo uma canção intitulada "Cantigas do Maio", em que através deste poema o Zeca conseguiu iludir a Ditadura e fazer uma crítica à Guerra Colonial, nestes versos:

Verdes prados, Verdes campos
Onde está minha paixão
As andorinhas não param
Umas voltam, outras não

A verdade é que iludiu a censura pois, os verdes prados, verdes campos eram as terras de África, enquanto que, "As andorinhas não param, umas voltam outras não": as andorinhas que não paravam eram os soldados que partiam para a guerra e, umas voltam outras não, eram também os soldados: uns voltavam outros não!

A poesia foi, de facto, uma arma contra os regimes opressivos: foi através da poesia que os Estudantes de Coimbra nos anos 60 enfrantaram a ditadura ao entoarem poemas de Manuel Alegre que Adriano Correia de Oliveira tão bem interpretou ... foi através da poesia que Léo Ferré (que práticamente declamava) criticou a situação francesa da época ... foi através da poesia que Boris Vian criticou a Guerra na Indochina nos anos 50 com o seu célebre poema "Le Déserteur" (não sei se conheces), foi através da poesia que Joan Baez e Bob Dylan semearam ventos de esperança em terreno hóstil como eram (e ainda são) os States, foi através da poesia que se criou terreno para a imaginação (John Lennon bem o provou) e tantas Utopias, foi através da poesia que se imortalizaram povos com as suas epopeias: repara a importância da poesia já na Antiguidade Clássica com a Ilíada, a Odisseia e a Eneida, além de não excluir (já fora da Antiguidade Clássica, é claro)os Lusíadas.
Foi através da Poesia que se conquistaram corações, assim faziam os trovadores na idade média com as cantigas de amor.
É ainda através da poesia, cantada em lindas baladas que os estudantes tantam conquistar as lindas donzelas em Serenatas de Rua ... e tanto mais havia a dizer da poesia ... é de facto uma arte ... que só é possível fazer quando há inspiração para tal ... tanto que, para terminar, deixo-te um poema feito por mim há muito tempo (ainda no tempo de Liceu em Abrantes)que não é sobre o tema da poesia em concreto, mas sim do poeta, intitulado "Escrever":

Esta guerra de escrever
É muito, e demais pensada
É onde o poeta vai ver
Que a caneta vale mais que a espada

É preciso saber ler
A mensagem no poema enviada
A maneira de escrever
Do poeta de alma fechada

A melhor maneira de dizer
No fundo, de quem não diz nada
Mas que escreve para viver

O poeta é uma alma isolada
Constantemente a sofrer
A quem ninguém liga nada

É realmente através da metáfora, como referes, que a caneta poderá valer mais que a espada.

 
At 1:33 p.m., Blogger Rui Lopes said...

Após ter abusado na longa dissertação que fiz no comentário anterior sobre a poesia e a metáfora, olvidei algo importante para a poesia: o sentimento, é natural que na poesia se podem explorar muitos e vários sentimentos, no entanto, na poesia portuguesa há um que poir vezes é característico: a Saudade! Esse sentimento que dizem que é exclusivamente português e muito raramente tradutível para outras línguas, em línguas estrangeiras apenas conheço esta palavra no Francês que pode ser "regrets" ou "nostalgie", que é muitas vezes usado na nossa poesia, sobretudo devido à maneira de ser do nosso povo que se espalhou pelo mundo inteiro numa diáspora nunca vista e ... quanto mais longe se está da pátria ... maior é a saudade ... eu noto isso em familiares que tenho no Brasil ... que vieram a Portugal a última vez em 1995 ... e é essa saudade que muitas vezes é o tema da poesia que o Português faz, sobretudo se estiver longe de algo com que se identifica e que lhe é querido, o que por vezes até pode ser contradição: repara o meu caso ... é claro que quando estou em Abrantes tenho saudades de Coimbra ... e quando estou em Coimbra ... não sei porquê ... também sinto saudades de Abrantes ... são coisas inexplicáveis que por vezes se podem explicar através da poesia ...
E das primeiras vezes que comecei a fazer poesia com tema de saudade ... foi quando estava longe de Coimbra ... logo após acabar o Curso ... quando fui fazer o Estágio Profissional no Arquivo Histórico de Abrantes ... é certo que gostei de voltar a Abrantes ... e rever pessoas que já não via após 4 anos de ausência nas margens do Mondego, e até gostei de trabalhar no Arquivo e da amizade que deixei com quem trabalhei ... mas a cada dia que passava ... questionava-me ... como estará Coimbra? Era a saudade que começava que em breve eu transmitiria em muitos dos meus poemas ... e também ia matando essa mesma saudade não em verso mas a tocar guitarra no Grupo de Fados de Coimbra ... tanto que assim que eu sabia que havia algo em Coimbra ao fim de semana ... sempre que podia lá ia ... mas ao vir-me embora ... a saudade apertava o coração e lá saíam alguns poemas, fruto dessa saudade e da despedida ... daí saem as baladas de despedida ... de um tempo que já não volta ... desculpa eu estar a falar muito sobre Coimbra, mas já sabes como eu sou a falar de Coimbra.
Até porque Coimbra deu muito à propria poesia e tem um local encantador em que a poesia tem voz: O Penedo da Saudade ... neste Penedo da Saudade ... onde se diz que D. Pedro ia chorar a saudade da sua amada Inês (e que terei o prazer de te mostrar quando vieres um dia a Coimbra)... hoje há lápides onde as pedras falam com poesia, sobretudo de saudade, desde baladas de despedida, desde poemas de reuniões de curso em que recordam em verso tudo um pouco, por isso naquele local, como diz uma Canção: "No Penedo da Saudade/Pedras choram pedras falam" e é verídico, porque aquelas pedras em lápide têm poemas que "falam" e que por vezes nos fazem chorar. Essa saudade é um grande sentimento que se expressa na poesia, tanto que te vou deixar dois poemas, que reflectem a saudade, sobretudo de Coimbra, o primeiro, chama-se "Saudade de Coimbra", que é da autoria de Manuel alegre, o segundo, é da minha autoria, chama-se "Coimbra" e é um Soneto que reflecte a saudade que estava prestes a sentir se deixasse Coimbra assim que terminasse o Curso no ano seguinte ... além do mais, este poema que eu fiz tem uma História engraçada ... na reunião de Curso para irmos no Carro da Queima das fitas em Maio de 2000, todos discutiam o que se haveria de pôr no início do nosso livro de Curso com as caricaturas ... começou tudo a discutir mas não havia concenso ... resolvi afastar-me um pouco da discussão e isolei-me um pouco para tentar fazer um poema para tal efeito ... e foi isto que saíu ... quando regressei de novo ao pé dos meus colegas ... ainda ninguém tinha chegado a concenso ... apenas lancei este poema para cima da mesa ... que rápidamente passou de mão em mão ... e todos concordaram por unanimidade que era o que iria no nosso livro de Curso (oferecer-te-ei um quando for a Abrantes, penso que já é dos poucos que tenho) e ... como o poema apenas queria referir a saudade de quem poderia abandonar brevemente Coimbra ... ainda me recordo de uma colega dizer ... este poema diz respeito a todos nós ... e surgiu num simples momento de inspiração.
Isto tudo só para referir que, a saudade é um sentimento exclusivamente português que se reflete muito na nossa poesia.
Assim aqui deixo os dois poemas

"Saudade de Coimbra"

De Coimbra, fica o sonho e a saudade
Cavaleiros andantes, Dulcineias
De Coimbra, fica a breve eternidade
Do Mondego a correr em nossas veias

De Coimbra, fica o sonho, fica a graça
Antero de revolta, capa à solta
De Coimbra, fica o tempo que não passa
Neste passar do tempo que não volta

Manuel Alegre - 1978


"Coimbra"

Coimbra! Que vemos ao sonhar
Deixar-te é desalento
Coimbra!Vamos-te cantar
Para sempre, ao sabor do vento

Oh! Sentimento
Para quê delirar
Se trazidos pelo vento
Havemos de cá voltar

Coimbra! Lição da nossa vida
Em vez de esquecer, vamos lembrar
A vida de Estudante perdida

Coimbra! vamos contigo sonhar
Na esternidade da nossa vida
Ver-te eternamente ao luar

Rui Lopes - Mais ou menos em Março ou Abril de 2000.

Sissi! Desculpa ter-me alongado no comentário ... mas decerto concordarás que este tema da Saudade é um excelente mota para a poesia.

Bjs

Rui

:)

 

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