AS BIBLIOTECAS PÚBLICAS: O QUE SÃO? PARA QUE SERVEM?
AS BIBLIOTECAS PÚBLICAS: O QUE SÃO? PARA QUE SERVEM?
Numa perspectiva de debater o tema acima questionado, pretendo começar por apresentar alguns excertos, retirados do livro A Biblioteca, de Humberto Eco, no qual o autor faz uma dissertação sobre o papel que a biblioteca assume na sociedade em que vivemos.
“… um dos mal-entendidos que dominam a noção de biblioteca é o facto de se pensar que se vai à biblioteca pedir um livro cujo título se conhece. Na verdade acontece muitas vezes ir-se à biblioteca porque se quer um livro cujo título se conhece, mas a principal função da biblioteca, pelo menos a função da de minha casa ou da de qualquer amigo que possamos ir visitar, é de descobrir livros cuja existência não se suspeitava e que, todavia se revelam extremamente importantes para nós.
… a função ideal de uma biblioteca é de ser um pouco como a loja de um alfarrabista, algo onde se podem fazer verdadeiros achados, e esta função só pode ser permitida por meio do livre acesso aos corredores das estantes.
… se a biblioteca é, como pretende Borges, um modelo do Universo, tentemos transformá-la num universo à medida dos homens e, volto a recordar, à medida do homem quer também dizer alegre, com a possibilidade de se tomar um café, com a possibilidade de dois estudantes numa tarde se sentarem num maple e, não digo de se entregarem a um amplexo indecente, mas de consumarem parte do seu “flirt” na biblioteca, enquanto retiram ou voltam a pôr nas estantes alguns livros de interesse cientifico, isto é, uma biblioteca onde apeteça ir, e que se vá transformando gradualmente numa grande máquina de tempos livres…”
ECO, Humberto, A Biblioteca
O Manifesto da UNESCO sobre as Bibliotecas Públicas, publicado em 1949 e revisto em 1972, torna-se o texto de referência para os profissionais e para os responsáveis das bibliotecas públicas. As bibliotecas vão ser definidas como instituições democráticas de ensino, de cultura e de informação.
Em 1994, com a Revisão do Manifesto da UNESCO, a biblioteca pública, que em 1972 era uma instituição democrática de ensino, de cultura e de informação, é agora "porta de acesso local ao conhecimento", e "centro local de informação“.
A biblioteca pública, no sentido que o Manifesto da UNESCO deu a este conceito, resulta numa instituição activa “aberta a todos os membros da comunidade, sem distinção de raça, cor, nacionalidade, idade, religião, língua, situação social ou nível de instrução”.
Esta instituição deve funcionar com os objectivos de contribuir para assegurar a qualidade de vida dos cidadãos em geral e da comunidade envolvente em particular, em todos os seus aspectos - educativos, económicos, industriais, científicos e culturais, e fomentar a ideia de uma sociedade democrática, através da observância contínua e permanente de objectivos de educação, informação, cultura e lazer.
Por um lado, a biblioteca pública deve promover e fornecer meios para o autodesenvolvimento do indivíduo/grupo, independentemente do seu nível de educação; por outro lado, deve tentar eliminar barreiras entre os indivíduos e os conhecimentos. Deve, também, fornecer informações correctas, com rapidez e em profundidade, particularmente sobre assuntos de interesse corrente.
Relativamente ao aspecto cultural, a biblioteca terá de ser um dos principais centros da vida cultural e deverá promover uma maior fruição, prazer e apreciação de todas as artes. Terá também de participar no encorajamento à utilização positiva do lazer e facultar meios de mudança e descontracção.
Face à sociedade da informação, refiro-me ao novo ambiente informacional e tecnológico, bem como à sua permanente evolução, a biblioteca enfrenta novas realidades a vários níveis. Este novo ambiente acarreta acrescidas exigências e responsabilidades, tanto a nível financeiro como a nível organizacional e técnico. No entanto, as funções actuais da biblioteca pública não são muito diferentes das que constituem a sua herança, o contexto é que é diferente, daí que as filosofias de funcionamento a implementar devam ser renovadas e adequadas à sociedade em que vivemos.
Actualmente, a diversidade dos suportes de informação e o aumento dos volumes de informação a tratar, levam à generalização do uso das novas tecnologias nas Bibliotecas de Leitura Pública, impondo uma certa adaptação dos recursos humanos a novas competências ligadas a técnicas de organização, identificação, catalogação, classificação e indexação dos fundos documentais a esta nova realidade electrónica. Com a Rede Informática de Leitura Pública e a consequente modernização da biblioteca, espera-se não só melhorar o serviço público como os serviços internos.
Do meu ponto de vista, a biblioteca deve ser um lugar onde o utilizador pode obter informações ou recursos de conhecimento, que podem existir na biblioteca ou podem ser obtidos através dela (se localizados, por exemplo, noutra biblioteca) ou ainda que podem ser encontrados na rede. De facto, os serviços de rede na biblioteca e o uso de recursos distribuídos são fenómenos relativamente recentes com que muitos utilizadores não se encontram familiarizados, pelo que existe actualmente uma necessidade especial de aumentar o apoio que lhes é disponibilizado nesta área.
Parece-me, por conseguinte, que o utilizador espera da biblioteca mais do que o apoio na identificação de materiais relacionados com a informação de que necessita, espera também que os materiais recuperados sejam realmente relevantes e pertinentes ao mais alto nível de qualidade para as suas necessidades.
Considero que as bibliotecas públicas, pela sua dimensão e pela extensão do contexto em que se integram, sentem dificuldades em dar uma resposta rápida e adequada aos seus utilizadores, pois não têm um público preferencial, têm todos os públicos, daí a necessidade de conhecer bem a comunidades em que se inserem. As TIC podem, no entanto, dar resposta às necessidades individuais, às exigências e ao novo perfil do utilizador.
Tendo em vista a satisfação das necessidades da sua comunidade, a biblioteca pública proporciona um vasto leque de serviços, como por exemplo o acesso às grandes colecções de materiais impressos dentro do edifício da biblioteca. No entanto, este serviço poderia ser disponibilizado ao público para além das paredes da biblioteca.
Por um lado, com a evolução do sistema global de informação, o surto das novas tecnologias de informação e comunicação, a rápida produção e disseminação de informação e documentos digitais, já permite levar os serviços da biblioteca e de informação directamente ao domicílio e ao local de trabalho do utilizador. Por outro lado, existem diversas formas de transporte que poderiam permitir a oferta de serviços de biblioteca e informação a pessoas que se encontram impossibilitadas de frequentar a biblioteca, garantindo a todas as pessoas o acesso a esses serviços.
Outra questão que considero importante abordar, prende-se com os edifícios onde as bibliotecas públicas estão instaladas, os quais devem ser planeados tendo em conta a oferta de serviços. Por um lado, devem ser acessíveis a todos os membros da comunidade e flexíveis para integrarem serviços novos e em transformação; por outro, devem localizar-se nas imediações de estabelecimentos comerciais e centros culturais. Gostaria de acrescentar que o interior das bibliotecas públicas deve ser acolhedor e atractivo, o mobiliário moderno e funcional, o acesso à informação fácil, quer se encontrem instaladas em edifícios construídos de raiz, quer em edifícios adaptados para o efeito.
Para benefício de toda a comunidade, o edifício da biblioteca deve ser gerido de forma eficiente pelo bibliotecário, fazendo o melhor uso possível das instalações, isto é, a biblioteca deverá estar disponível para encontros, exposições e outras actividades.
Uma biblioteca pública tem como missões essenciais seleccionar, coligir e organizar informação, no sentido de ser disponibilizada à comunidade, sem descurar a sua preservação. Deve existir a preocupação com a colecção, manutenção, actualização, selecção e aquisição de fundos documentais nos mais diversos suportes, bem como a sua disponibilização ao público e o livre acesso. Deste modo, terá de ter recursos humanos que tenham recebido formação técnica adequada, que sejam atentos e informados, que frequentem acções de formação, que sintam a preocupação em conhecer os interesses da comunidade envolvente e em satisfazer as necessidades dos seus utilizadores.
Todos nós sabemos que as bibliotecas públicas tornaram-se mais dispendiosas, necessitando do apoio do governo para a obtenção de fundos. Surgem, assim, problemas de financiamento que se prendem com questões relacionadas com decisões, perspectivas e agendas políticas. Neste contexto, em minha opinião, as bibliotecas devem trabalhar no sentido de conseguir os fundos públicos adequados mas, como estes não são suficientes, devem encorajar-se as parcerias, procurar apoio na comunidade e trabalhar com outros organismos, sejam eles públicos ou privados.
As bibliotecas públicas devem ser implementadas em qualquer ponto do país, como factor imprescindível de desenvolvimento das populações. O seu acesso deve ser livre e gratuito, as suas colecções e informação de elevada qualidade, adequada às necessidades da comunidade e às condições locais, livres de censura, reflectindo as tendências actuais e a evolução da sociedade. O sucesso destas instituições depende vários factores, entre os quais destaco a renovação e actualização dos fundos bibliográficos, a progressiva introdução das novas tecnologias e a qualidade do seu pessoal técnico.
No fundo, a biblioteca deve estar organizada de forma o mais eficaz possível com o objectivo de dar uma resposta “democrática” e descentralizada às necessidades de todos os que pretendem informar-se, instruir-se, ou ocupar os seus tempos livres.
Do meu ponto de vista, a biblioteca enfrenta novos desafios com a emergência da sociedade da informação, sofrendo profundas transformações ligadas à presença crescente das novas tecnologias de informação e comunicação. No entanto, estes desafios podem constituir, a meu ver, a oportunidade das bibliotecas se tornarem cada vez mais importante na vida das pessoas.
Gostaria de terminar da mesma forma como comecei, isto é, invocando Umberto Eco. A meu ver, o livro A Biblioteca termina de uma forma genial, não só porque faz referência a ideias, de extrema importância, contidas no Manifesto da UNESCO, como também nos deixa uma interrogação final que podemos entender como um desafio para perspectivar o futuro.
“Sei que a UNESCO concorda comigo: «A biblioteca… deve ser de fácil acesso e as suas portas devem estar abertas a todos os membros da comunidade, que poderão usá-la livremente, sem distinções de raça, de cor, de nacionalidade, de idade, de sexo, de religião de língua, de estado civil ou de nível cultural». Uma ideia revolucionária. E a referência ao nível cultural pressupõe igualmente uma acção de educação, de apoio e de preparação. E mais: “O edifício onde está situada a biblioteca pública deve ser central, de fácil acesso mesmo para os inválidos e estar aberta a horas viáveis para toda a gente. Tanto o edifício em si como o seu mobiliário devem ser de aspecto agradável, confortáveis e acolhedores; e é essencial que os leitores possam ter acesso directo às estantes». Será que vamos conseguir transformar esta utopia em realidade?”
Até breve!
Saudações biblioteconómicas!!
SL

1 Comments:
Tens toda a razão! As novas tecnologias são bastante importantes no mundo da Ciência da Informação, pois permitem uma recuperação da informação de forma mais eficaz melhorando o "Circuito Biblioteca/Utilizador", isto é, a informação chega mais depressa ao utilizador. A net é importante nisso, senão repara, um utilizador pretende saber se exite determinada obra na biblioteca faz a pesquisa e vê se a obra existe ou não. Só que a internet também tráz outro problema no âmbito do utilizador, é que assim não conhecemos o utilizador nem as formas como pesquisa, o que pode dificultar ainda mais a indexação, pois para termos uma boa indexação é bom conhecermos o utilizador e a formas como pesquisa.
A Biblioteca Pública é importante, deve cativar as pessoas a irem lá, com actividades diversas, para assim justificar que a Biblioteca deve existir, tal como a Biblioteca de Livre Acesso é óptimo, no entanto, também tem um senão, é que o utilizador chega à estante consulta a obra e pode já não a colocar no local correcto e, neste caso, livro mal arrumado, livro perdido. No entanto, dou-te a conhecer o caso da Biblioteca Municipal de Coimbra, é de livre acesso, só que depois, tem junto das estantes uma caixa que diz "depois de consultar, coloque aqui, nós arrumamos", acho isto importante, o utilizador vai à estante consulta a obra, mas já não a arruma mal.
Quanto ao livre acesso, nem em todos os sistemas de informação é possível, senão vejamos o caso do Arquivo: o Arquivo é um sistema de informação semi-fechado, pois não é possível o livre acesso, não só pelo género de documentos, mas tambbém pela confidencialidade de certos documentos que não podem estar acessíveis de qualquer maneira. Repara no meu caso, trabalho num Arquivo de uma Escola, há 3 séries que nunca poderiam ter livre acesso: os Processos de Alunos, Processos das alunas do lar e os Processos de Bolsas, pois têm matéria confidêncial de cada pessoa. No caso do Arquivista estamos mesmo obrigados ao segredo profissional, repara, se eu trabalhar num Arquivo em que tenha acesso a "segredos de estado" estou obrigado à confidencialidade, mesmo para lá da aposentação.
Continua com estes posts sobre as Ciências da Informação. Quando andei a estagiar no Arquivo o Dr. Francisco também me aconselhou a ler o que tens no post: "A Biblioteca" de Umberto Eco; o Manifesto da Unesco e "A Biblioteca Pública como conhecimento Público" de que não me recordo o autor. Além disso, também há um excelente livro sobre a História das Bibliotecas "Penso que há aí na BMAB" intitulado "Les Bibliothéques" (não me recordo o autor), editado pelas Presses Universitaires de France, na Colecção "Que sais-je?". Também é uma obra que se lê bem!
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